Do carisma à confrontação: a virada de postura nas redes
Durante décadas, ser famoso significava agradar a todos. O ideal da celebridade impecável — sempre sorridente, educada e publicamente neutra — foi um modelo cultivado por agentes, marcas e veículos de comunicação. Mas a nova geração que domina os holofotes digitais parece seguir outro roteiro: ela não quer agradar, não pede desculpas e, muitas vezes, prefere ser contraditória a ser passiva.
Não se trata de rebeldia gratuita, mas de uma mudança no eixo da influência. Personalidades como artistas, influenciadores, atletas e streamers estão sendo cada vez mais valorizados por sua autenticidade e pela disposição em bancar discursos dissonantes. A conexão emocional com o público agora nasce da identificação — e não da perfeição.
O colapso da imagem controlada
O desgaste da imagem pública polida se acentuou com a ascensão das redes sociais, onde a exposição é diária e contínua. Perfis muito construídos passaram a parecer artificiais, gerando desconfiança entre seguidores que buscam espontaneidade. Ao contrário do que se via no passado, escorregar ou expressar opinião hoje não destrói carreiras — pode até fortalecê-las.
A quebra dessa lógica também é consequência do excesso de vigilância digital. Com milhares de câmeras, prints e reações a cada movimento, controlar completamente a imagem se tornou inviável. A resposta natural foi a adaptação: ao invés de evitar conflito, muitas figuras públicas passaram a assumir posturas frontais, respondendo críticas com ironia, enfrentando cancelamentos e recusando moderação.
A cultura do desacordo como estética e conteúdo
Não agradar virou, em muitos casos, uma estratégia deliberada. Canais de opinião crítica, perfis sarcásticos e personalidades que desafiam regras de conduta conquistam enorme engajamento, justamente por parecerem menos “ensinadas” e mais “reais”. O público valoriza o incômodo como um gesto de coragem, principalmente entre os mais jovens.
Há também um novo tipo de celebridade que cresce fora do circuito tradicional — pessoas que viralizam por um momento de confronto, uma fala direta ou uma atitude inusitada. Elas não dependem de contratos com emissoras, gravadoras ou revistas: vivem da reação imediata, do impacto momentâneo e da repercussão espontânea.
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Quando o improviso vira marca registrada
Na lógica da influência contemporânea, planejar é importante — mas improvisar pode ser o que cria um mito. Muitos perfis que hoje figuram entre os mais comentados da internet surgiram de falas não editadas, lives caóticas e respostas fora do padrão. O improviso gera ruído, mas também cria memorabilidade.
O melhor exemplo disso são os formatos que estimulam o risco e a reação em tempo real, como o jogo do aviãozinho, popular entre streamers e criadores de conteúdo. Nesse tipo de dinâmica, o que atrai não é o resultado final, mas o suspense, a emoção crua e a expressão autêntica no calor da hora — a mesma lógica que sustenta a viralização de vídeos inesperados e reações espontâneas.
Marcas, mídia e o desafio da imprevisibilidade
O novo perfil de celebridade impõe um dilema às marcas e veículos: como associar sua imagem a figuras que não seguem roteiro? A resposta, cada vez mais comum, é adaptar os contratos ao risco. Muitas campanhas já preveem cláusulas para crises, oscilações e episódios de exposição negativa. Ao mesmo tempo, algumas empresas enxergam justamente nessa imprevisibilidade o diferencial que as conecta com o público real.
As redações de jornalismo de entretenimento também precisam reavaliar suas abordagens. Análises rasas ou cobertura puramente laudatória perdem relevância diante de personalidades que não se interessam mais em parecer perfeitas. O desafio é compreender as contradições, os ruídos e os momentos de tensão como parte essencial do novo protagonismo midiático.
